Incoerências estratégicas da Apple

Continuando com o que discutimos no último post, hoje vamos analisar o pacote da Apple para o novo e crescente mercado da internet móvel por gadgets. Também vou dar umas apitadas nas estratégias do fenômeno Steve Jobs. Que sua fanática torcida me perdoe. Claro que também admiro o seu talento. Mas entre o nervosão antipático Steve Jobs e o nervosão antipático Dunga eu prefiro o último. O apito tem vontade própria.

Para ser competitivo no mercado dos gadgets e smartphones é preciso um bom conjunto de hardware, software e serviços na nuvem. A Apple tem uma posição privilegiada em software e hardware pois sempre ofereceu os dois juntos num pacote como um único produto se diferenciando claramente de seus concorrentes. Vemos a mesma excelência tanto no pacote como até nos serviços de suporte e garantia dos produtos.

Porém a empresa ainda não gerou resultados em oferecer um serviço em nuvem completo e gratuito como o do Google. A Apple se destaca com o maior portfólio de aplicativos em sua loja virtual, mas em relação a serviços seus esforços foram tímidos e incapazes de competir até mesmo com o estreante Ovi da Nokia. E neste mercado uma corrente é tão boa quanto seu elo mais fraco.

A empresa parece seguir num rumo difuso em relação à estratégia. Desde sua reestruturação ela trabalhou com um marketing muito bem sucedido. Tornou-se uma das marcas mais desejadas do mundo, o que permite uma margem de lucro generosa de 60% sobre cada iPhone. E criou uma legião de seguidores que forma filas para comprar seus lançamentos e adoram as lojas da marca como se estivessem em templos.

Por outro lado a empresa está em pé de guerra com aquele que antes foi seu aliado por algo que não tem qualquer possibilidade de conseguir. Trata-se de brigar por ter o sistema mais usado do mercado, o que na significa na prática, repetir o monopólio do Windows sobre os PCs. Algo que só será possível se a Apple abrir mão da gorda margem de 60% e inundar o mercado com seus produtos. O que mas que traria problemas sérios com seus acionistas. Ou podreia abrir mão do seu conceito de produto (qualidade total do conjunto software + hardware) e distribuir seu sistema separadamente como o Google fez com o Android. Mas pela rigidez e apego da Apple a esse conceito duvido muito que isso aconteça.

Talvez o monopólio possa ter parecido uma possibilidade quando viram o tamanho do sucesso do iPhone. Ou talvez esse desejo venha de um certo recalque de alguém que não suportou levar um chapéu de Bill Gates e perder o bilionário mercado dos PCs 25 anos atrás. Mas dadas certas características sobre as escolhas dos indivíduos, como argumentei em outro post, não passa de ilusão achar que podem repetir o feito da Microsoft. Os indivíduos, quando se sentem controlados e dependentes, passam a preferir liberdade. E aí está o ponto fraco da maçã.

Inflexibilidade sempre foi um problema da Apple. Um exemplo é a polêmica questão do Flash no iPad. Compreendemos que o Fenômeno se oponha ao Flash por primar pela excelência e o Flash é origem de muitas falhas. Mas quando os clientes demonstram tolerância às falhas para ter o benefício de navegar melhor, a busca por excelência perde o sentido. Perde-se o foco no consumidor. A HP promete solucionar isto com o Slate e a Adobe está apostando sua honra em fazer o seu melhor trabalho depois das críticas públicas que recebeu do Fenômeno.

Em relação ao hardware basta lembrar-se das infinitas configurações de hardware que usam Windows. Imagine o quanto vai ser valorizada a flexibilidade em relação ao hardware no caso dos smartphones. Conheço pessoas que fazem absoluta questão de ter um teclado QWERTY físico. Ou que fazem questão de uma câmera de qualidade ou preferem preço e até tamanho. Em todos estes casos os produtos da Apple não atendem, pois são padronizados.

Pior fica quando vemos os efeitos da rivalidade: logo após o anuncio do Google Nexus o Fenômeno anunciou que os próximos iPhones viriam com o buscador configurado para o Bing. Na mesma época vetou o App de VoIP do Gtalk alegando proteção à operadora AT&T mas não vetou o App do Skype. Que valor isso gera para o consumidor? Se o seu produto é tão bom, porque não confia que será o preferido? Qual o sentido de sabotar o concorrente piorando o próprio produto? Aliás, imagine se o Google decide vetar seus serviços ao iPhone? Jogo sujo, né?

Apesar da genialidade do Fenômeno a Apple sofre com problemas que toda empresa familiar administrada por seu fundador tem: a identificação que o fundador cria com a empresa, tornando-a totalmente vulnerável a questões de ego, temperamento e questões pessoais que fogem ao propósito do mundo dos negócios.

2 responses to this post.

  1. Posted by Gyancarlo on abril 20, 2010 at 5:59 am

    Bem… todos nós sabemos que quando as coisas vão pro nível do software o bicho pega. Os produtos da Apple são eternos pecadores por capar recursos de seu sistema. A única vantagem de Steve Jobs em relação ao Flash é que os usuários de sistemas GNU/Linux já o odeiam a Adobe desde a compra da Macromedia o que tornou o Flash um recurso exclusivista, pago (e muito bem por sinal, pois a Adobe ama dinheiro) e que ainda por cima não oferecido performance/estabilidade. A Adobe sobrevive com o Flash por causa do sucesso de sites como o YouTube, mas outras alternativas estarão por vir, isso é certo. Steve Jobs simplesmente decidiu antecipar a briga e tentar ganhar a fatia do mercado que está revoltada com o Adobe Flash. Pelo menos me parece ser essa a estratégia. Vamos esperar e ver se o tiro não irá sair pela culatra. Eu realmente espero que o Flash se F**DA, afinal meu firefox já deu crash mais de uma vez por causa de páginas com Flash. A aposta de Jobs é na ultra-popularização da internet no celular, o que vai obrigar os Designers (única raça que gosta do produto Adobe) a usar outras codificações para criar páginas da web. Se isso acontecer, logo logo o mercado vai exigir que o Flash seja desativado ou se transforme em um recurso opcional. É uma aposta arriscada, de fato, mas com todas as ressalvas que eu tenho em relação ao criador do MAC e do iPhone, parece uma boa aposta. Afinal o iPhone é realmente gostoso pra navergar pela rede mundial dos computadores.

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    • Concordo que é uma aposta boa. Mas me pergunto porque o Jobs quis comprar essa briga se não tem nada a ver com ele isso. E o segundo ponto é: esperamos que o flash se extingua do mercado, mas como efeito colateral da atitude bruta do Steve Jobs nesta iniciativa ele só conseguiu que uma empresinha sem importancia para a internet mais conhecida como Google se unisse à Adobe contra a Apple. Já era, perdeu preiboi.

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